Recreação e Lazer: concepções e significados

Antonio Carlos Bramante

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                    “O lazer se traduz por uma dimensão privilegiada da expressão humana dentro de um tempo conquistado, materializada através de uma experiência pessoal criativa, de prazer e que não se repete no tempo/espaço, cujo eixo principal é a ludicidade. Ela é enriquecida pelo seu potencial socializador e determinada, predominantemente, por uma grande motivação intrínseca e realizada dentro de um contexto marcado pela percepção de liberdade. É feita por amor, pode transcender a existência e, muitas vezes, chega a aproximar-se a um ato de fé. Sua vivência está relacionada diretamente às oportunidades de acesso aos bens culturais, os quais são determinados, via de regra, por fatores sócio-político-econômico e influenciados por fatores ambientais.”

BRAMANTE, Antonio (1998)

          Conceituar lazer tem sido para mim, ao longo de 25 anos de engajamento nesse campo de estudos, um desafio profissional de extrema complexidade. Permeado por inúmeros autores nacionais e estrangeiros de tendências e abordagens distintas, particularmente nos últimos dez anos, venho, sistematicamente “construindo” a minha versão desse fenômeno para melhor interpretá-lo e compreendê-lo.

          Sua complexidade transita desde sua etimologia, representando sentidos distintos na sua raiz latina: licere (lazer), schole (escola), otiu (ócio),entre outros. Entre os nossos países vizinhos de língua espanhola, a palavra lazer inexiste, sendo, habitualmente, tratada por “ocio” ou “tiempo libre”.

          Fenômeno típico decorrente principalmente dos efeitos da revolução industrial e agravado pelo crescente processo de urbanização das cidades, o lazer vem sendo também, ao longo do tempo, conceitualmente confundido com outros derivativos tais como recreação, jogo, esporte, etc.

          A partir dos anos 50 o lazer começa ocupar espaço de relevância no seio acadêmico internacional para tornar-se um amplo campo de estudos, pesquisas e aplicação . Seu caráter interdisciplinar tem sido uma tônica, que busca facilitar a compreensão do lazer, exposto pelos mais diversos enfoques profissionais. Filosofia, história, antropologia, sociologia, psicologia, geografia, são algumas das áreas do conhecimento que têm contribuído de maneira expressiva para facilitar a compreensão do lazer.

          Muito embora a obra “Lazer Operário” de Acácio Ferreira, editada em 1959, seja reconhecida por muitos estudiosos do assunto como o marco inicial das reflexões dessa problemática social no Brasil, somente a partir dos anos 70 que o mesmo começa a receber maior atenção dos pesquisadores.

          Da influência européia dos anos 70/80, vindo principalmente do ramo da sociologia, para a influência norte-americana dos anos 80/90, construída particularmente a partir da psicologia, vivemos hoje uma pluralidade de conceitos onde os autores das mais variadas matizes ideológicas tendem a concordar tão somente com um conjunto de características advindas da vivência do lúdico, eixo fundamental do lazer.

          Uma vez apresentada essa breve evolução do tema, optei por discutir meu próprio conceito de lazer para inaugurar essa publicação específica dentro da sessão “Múltiplos Olhares” sobre concepções e significados do lazer e recreação.

O lazer se traduz por uma dimensão privilegiada da expressão humana dentro de um tempo conquistado

          Dada as características da sociedade capitalista contemporânea, onde instrumentalizou-se o tempo e a atividade recreativa tende a transformar-se em mera mercadoria, a dimensão do “não trabalho” pode assumir uma nuança extraordinária para a vivência da essência humana, através da conquista de um tempo da “não utilidade” frente as pressões crescentes de se dar sempre uma certa finalidade ao uso do tempo. O tempo, conceito objetivamente inelástico, vem se tornando uma “mercadoria” de luxo onde a máxima “tempo é dinheiro” chega a refletir o verdadeiro significado que é dado ao mesmo por segmentos significativos da nossa sociedade. Portanto, “conquistar” um tempo da não obrigação vem se impondo como um desafio para todos que desejam exercitar a face humana da vida plena.

… materializada através de uma experiência pessoal criativa, de prazer e que não se repete no tempo/espaço, cujo eixo principal é a ludicidade…

          Tenho optado ultimamente pelo conceito de experiência ao invés de atividade, dado ao componente de qualidade que caracteriza o primeiro. O conceito de atividade, no meu entender, é mais apropriado quando associado a recreação, por exemplo, “programa de atividades recreativas para pré-escolares…” e assim por diante.

          Com a crescente aplicação da psicologia nos estudos do lazer durante os anos 70, incorporou-se ao binômio tempo/atividade – atributos principais na conceituação do lazer – o caráter atitudinal ao indivíduo que o vive, tornando o lazer, antes de tudo, um fenômeno pessoal e com alguns atributos básicos, destacando-se dois deles: a criatividade e o prazer. A explicação da dimensão tempo residual das obrigações pessoais e sociais para explicar o lazer foi se esgotando na era denominada “pós-moderna” onde a vida como um todo perde a sua linearidade e ganha novos enfoques nas relações sociais entre o indivíduo e ele mesmo, ele com o próximo e ele com o meio ambiente. Entra em vigor o conceito mais elástico de tempo social onde a oscilação entre a obrigação e não obrigação, característica do contexto humano, extrapola a dimensão objetiva de tempo. Já a atividade como traço definidor do que é ou não lazer, pode auxiliar, favorecendo o entendimento de algumas taxionomias, mas, de longe, oferece qualquer sustentação teórica pois o que pode ser lazer para um, pode não ser para outras pessoas e ainda mais, para aquela mesma pessoa, aquilo que era lazer naquele momento poderá deixar de sê-lo minutos após devido inúmeros fatores intervenientes que compõe uma experiência de lazer. Portanto, por mais que se recrie o ambiente de uma experiência de lazer bem sucedida, ela é temporal/espacial, isto é, sempre nova, renovada, possivelmente poderá ser até mais enriquecedora do que a anterior, mas nunca como aquela vivida naquele tempo, naquele espaço. A ludicidade, como eixo principal da experiência de lazer, vem sendo uma das poucos unanimidades entre os diversos autores que teorizam sobre o significado do lazer, onde através dos mais diversos estudos redescobre-se a vocação inerente do ser humano que brinca e que joga, na sua mais pura essência antropológica.

Ela é enriquecida pelo seu potencial socializador e determinada, predominantemente, por uma grande motivação intrínseca e realizada dentro de um contexto marcado pela percepção de liberdade

          Nesse particular, vale ressaltar a relação dialética existente entre o indivíduo (moticação intrínseca/percepção de liberdade) e o ambiente (potencial socializador), onde se observa uma mútua influência, resultando no envolvimento da(s) pessoa(s) no lazer. Trata-se de uma abordagem conceitual psico-social do lazer, bastante pesquisada na atualidade, por considerar as forças sociais e culturais do macro-ambiente, as quais afetam tanto os agentes socializadores do lazer (família, escola, pares, midia, etc.), como o repertório individual de experiências pessoais nesse campo. Através da competência percebida e da auto-determinação, segundo essa vertente, ocorrerá um maior ou menor envolvimento da(s) pessoa(s) no lazer. Se a experiência de lazer é pessoal, não se pode, portanto, negar seu potencial socializador, capaz de reunir pessoas em uma atmosfera favorável de alegria onde pessoas comungam de desejos e necessidades semelhantes no tempo do não trabalho. Há mesmo quem afirme que a verdadeira experiência de lazer só se concretiza com o compartilhar com o(s) outro(s).

          Os dois eixos essenciais para a compreensão da riqueza do lazer, motivação e na liberdade, podem ser visualizados em um contínuum, onde na motivação transita entre a intrínseca e a extrínseca e o grau de percepção da liberdade entre o controle pessoal e de outro(s). Quanto mais “gratuita”, sem finalidades rigidamente estabelecidas, voltadas para a plena satisfação interna e sob o controle pessoal, maior e melhor a qualidade da experiência de lazer.

É feita por amor, pode transcender a existência e, muitas vezes, chega a aproximar-se a um ato de fé

          A presença desses três elementos dentro do conceito de lazer pode, em princípio, causar estranheza. O argumento a seu favor é que quando vivemos uma verdadeira experiência de lazer o fazemos por amor, isto é, agimos como um amador, aquele que ama o que faz, de maneira desinteressada, sem buscar uma recompensa extrínseca, diferentemente do profissional, que melhora sua performance, seja qual for a habilidade necessária, com finalidades bastante definidas. À medida em que o engajamento de uma pessoa em uma determinada experiência de lazer se amplia tanto em quantidade e como em qualidade, o fenômeno da transcendência da existência se instala. Não é incomum viver uma experiência ótima de lazer ou, como também é denominada, de fluidez, onde as pessoas simplesmente “se perdem” no tempo e no espaço, fazendo com que se viva uma dimensão indiscritível da experiência humana. Vários exemplos poderiam aqui ser citados, como no caso dos esportes radicais ou mesmo o contemplar de uma natureza privilegiada ou ainda, aquela pessoa que chega do trabalho e, literalmente, se “enterra” na oficina do fundo de quintal construindo ou consertando algo (“bricolage”). Ao perguntar-se para essas pessoas o que estão sentindo naquele exato momento da experiência lúdica, constata-se a hesitação com meias palavras como “… é…, sabe…,…olha,… eu não sei lhe explicar… você tem que experimentar para sentir…”

          Nessa linha do “amor/transcendência à existência”, é provável ocorrer algo semelhante a fé, isto é, a crença de que aquela experiência vivida é a mais importante de todas e portanto tentar-se-á aprofundar mais e mais na mesma, conhecendo melhor o que já se faz bem na busca da excelência no lazer. Esse fenômeno tem sido descrito por alguns autores em literatura recente como serious leisure, ou seja, o lazer comprometido, ou ainda o lazer levado a sério, tal como se observa principalmente entre os “hobbistas” e aqueles que realizam trabalhos voluntários. A linha demarcatória entre o lazer e o trabalho torna-se tênue onde, muitas vezes valores atribuídos ao trabalho permeiam a experiência de lazer e vice versa. É o caso de muitas reuniões entre amigos para um churrasco onde a sua organização em termos de horários, providências, atribuições, responsabilidades chegam a aproximar-se dos atributos do trabalho. Da mesma forma, os ambientes de trabalho estão cada vez mais “humanizados”, onde na busca de melhor produtividade, elementos do lazer permeiam as atribuições características do trabalho obrigatório.

Sua vivência está relacionada diretamente às oportunidades de acesso aos bens culturais

          A questão de acessibilidade aos bens culturais é um desafio para todos os profissionais de lazer, particularmente para aqueles que atuam dentro do setor público. Acredito que o papel fundamental desse profissional é de um educador com uma visão revolucionária que tenta ampliar a base do repertório de experiências diversificadas dentro dos mais variados conteúdos culturais do lazer já que a escola se preocupa quase que exclusivamente com a formação para o trabalho. É lamentável constatar, por exemplo, que o movimento em muitas bibliotecas cresce às vésperas das provas escolares com um grande acúmulo de cópias xerografadas das partes principais de livros, “daquilo que vai cair na prova”. Mais grave ainda quando essas bibliotecas funcionam no chamado “horário comercial”, retirando desse espaço privilegiado de difusão cultural sua missão mais nobre que é fomentar o “saber com sabor” enquanto lazer, quando as pessoas, literalmente, “se perdem” entre as prateleiras, tendo ido em busca de um assunto, se apaixona por uma poesia que se encontra no mural daquela biblioteca e começa explorá-la através da busca desapercebida e gratuita do prazer da leitura.

os quais são determinados, via de regra, por fatores sócio-político-econômico e influenciados por fatores ambientais

          É bastante discutido na literatura especializada o grau de influência de alguns indicadores tais como idade, renda, nível de educação, entre outras variáveis que possam influenciar no acesso e sucesso de uma pessoa dentro no lazer. Todos eles exercem alguma influência na adesão ao lazer. Porém, num país desigual como o nosso, onde a grande maioria sobrevive na linha abaixo da pobreza e muitos na linha da miséria, esperar por uma experiência de lazer que promova o seu desenvolvimento social e como indivíduo e quase uma utopia. Alguns estudos têm demonstrado que a sociabilização ao lazer quando rica no seio familiar tende a criar, a longo prazo, um “currículo oculto” que muito beneficiará essas pessoas no tempo de não trabalho. A influência do mass media, o crescimento da oferta de lazer pela iniciativa privada com a conseqüente abdicação do setor público nessa área de serviços, os perigos de transformar o lazer mais em ter do que ser, a degradação ambiental, a corrida desenfreada pelo turismo como fonte de riqueza para os município, alguns modismos que vão dos esportes radicais aos mais variados parques temáticos, são, entre outros, elementos que devem servir de reflexão para aqueles que atuam nesse campo.

          Para concluir estas reflexões acerca de concepções e significados da recreação e lazer, vale um alerta com relação a formação de recursos humanos especializados para a área. Frente a complexidade do tema, muito embora haja iniciativas esporádicas nesta ou naquela universidade (principalmente algumas instituições privadas, muito mais atraídas pelo “filão” econômico que o lazer e entretenimento representam do que pela inovação da dimensão lúdica das pessoas), constata-se uma certa desarticulação entre as lideranças do país nesse campo de atuação para que se possa elaborar uma agenda mínima de ações em termos de preparação de recursos humanos e formulação de políticas setoriais de lazer. Há sim avanços: mais prefeituras municipais estão encampando a idéia do lazer comunitário, atualizam-se os conhecimentos entre alguns dirigentes de clubes sociais recreativos na sua vastíssima malha no país, ampliam-se as publicações, estamos já na décima edição do Encontro Nacional de Recreação e Lazer (ENAREL), pela primeira vez o Brasil sediará o Congresso Mundial de Lazer, mais teses de mestrado e doutorado estão sendo produzidas, mas, falta ainda um direcionamento mais claro entre os profissionais para que se potencialize junto a sociedade os valores do lazer mostrando os seus benefícios. A “gratuidade” do lazer para quem vive essa experiência não pode ser confundida com o espontaneismo na sua concepção e administração. Uma verdadeira intervenção cultural dentro do lazer exigirá esforços concentrados em determinadas direções que envolvam a aglutinação dos recursos para a elaboração da mencionada agenda mínima para o setor. Assim, as diferentes concepções e significados da recreação e lazer, como propõe estes “Múltiplos Olhares” poderá contribuir para que a sociedade brasileira compreenda os valores dessa dimensão tão importante da vida humana que é o lazer e tente preservá-lo como foco de resistência ao consumo alienado, barato e medíocre daquela recreação que só diverte, isto é diverge do sério mas mantendo a sisudez que afasta da felicidade.

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